Por Cleide Bragliollo
Pois é.
A idéia do
Azul Calcinha era motivar suas colaboradoras a montar um “Top Five” do melhor
de 2011 e outro de expectativas para 2012, tipo “cada um no seu quadrado”.
Meu quadrado,
aqui no site, é TV (a cabo, que ninguém é de ferro...) e sempre que posso falo
sobre minha maior nerdice: as séries de TV e os filmes, sobretudo aqueles fora
do grande esquemão, que só se vê na TV a cabo.
Quando comecei
a escrever, percebi que 2011 foi o ano das séries, por excelência – tanto das
grandes estréias, como de novas temporadas que consolidaram grandes lançamentos
de anos anteriores.
É isso. 2011
foi o ano das séries de TV, de novo.
Há muito mais a
falar sobre elas do que sobre os filmes. Porque elas inovaram, ousaram e
encantaram. Tudo que o cinema não fez, já que os grandes estúdios, com o dedo
no botão do pânico, nos empurraram um monte de continuações, franquias, 3D de segunda
e super-heróis de carisma duvidoso.
E, num ano de
crise financeira mundial, também o cinema alternativo, que nos chega da Ásia e
da Europa, andou meio à míngua, como disse a
excelente comentarista Ana Maria Bahiana, que vê tudo de perto, lá na matriz, “2011 foi ano em que o cinema teve saudade do
cinema”. Se por um lado,
o cinema (também na TV) andou claudicante, por outro, tomou surras homéricas das
séries.
A coisa ficou
tão gritante que gente boa do cinema, muito boa mesmo, agora faz séries de TV
com grande competência e entusiasmo. O que até a alguns anos atrás era
desprestígio (fazer TV?!) hoje é motivo de orgulho e, muitas vezes, de
renascimento de carreira.
Toda essa
introdução para explicar minha lista, que virou...
TOP TEN 2011 SERIES DE TV
BRAKING BAD (AXN)
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| Breaking Bad evidencia, de forma assustadora, que há um demônio dormindo, dentro de cada um de nós. |
Quem anda em
busca de diversão leve e descontraída deve passar longe desta, que considero simplesmente
a melhor série de TV já escrita, dirigida e atuada.
A história do
afável professor de química que, tendo recebido diagnóstico de câncer terminal
resolve fabricar metanfetamina, para garantir o futuro da família, se envolve
com o tráfico e passa a mentir para manter a fachada – sobretudo diante do
cunhado, que é policial do Departamento de Narcóticos, é um estudo assustador
da alma humana.
Li no twitter
que Tarantino não perde um capítulo. Tem bom gosto esse moço. Realmente, a
série tem tudo a ver com ele. Vou me repetir, para definí-la com poucas
palavras: é a série que os irmãos Coen devem lamentar não terem escrito.
Criada por
Vince Gilligan (Arquivo X) que assina os roteiros, a direção e a produção, e que
nesta 4ª temporada praticamente chuta o balde (seu título é uma gíria que pode ser traduzida como “meter o pé na jaca”,
“tocar o horror” ou “chutar o balde”) Breaking
Bad mantém um pique irrepreensível, desde o princípio.
Mas, atenção!
Se você não a segue, só tem um jeito de usufruir dessa raridade: baixe ou
alugue, mas comece desde 1º capítulo da 1ª temporada.
GAME OF THRONES (HBO)
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| Espero com ansiedade a próxima temporada. Só espero que não matem o anão! |
Até algum tempo
atrás, pouca gente já tinha ouvido falar em George R.R.Martin. Hoje seus livros
são devorados avidamente. Coisas que uma incrível série de TV consegue fazer.
A série,
inspirada no universo fantástico de “As Crônicas de Gelo e Fogo” conta a
história de clãs de diferentes origens, que lutam pelo Trono de Ferro, a partir
do qual são controlados os Sete Reinos.
Ousada, mata na
primeira temporada pelo menos dois dos personagens mais marcantes (inclusive o
personagem do pôster de lançamento!) põem em evidência mulheres fortes e/ou
manipuladoras, mostra cenas de sexo impensáveis há pouco tempo e entrega um dos
principais papeis a um anão lindo e malvado - o pequeno grande ator Peter
Dinkalge, que estraçalha no papel do maquiavélico Tyrion Lannister.
Quer algo mais
“Mal Posso Esperar” que aguardar a 2ª temporada de Game of Thrones, prevista para abril nos USA?
THE WALKING DEAD (FOX)
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Há um mistério inexplicável em Walking Dead: a cada capítulo, os zumbis correm mais depressa. Deve ser a dieta carnívora! |
Imagine que um
belo dia você acordou e descobriu que sua família desapareceu, que a civilização
desceu pelo ralo e que o mundo todo foi invadido por hordas de zumbis...
carnívoros!
Pois o policial
Rick Grimes (o ator inglês Andrew Lincoln, que segura firme a barra de The Walking Dead) foi à luta e vem nos
emocionando a cada capítulo desta maluca série, que mistura drama, aventura e
terror.
Quando correu
pela internet que Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade) deixara a série por
ele criada, um receio geral tomou conta da legião de aficionados que a 1ª
temporada conquistou.
Mas chegaram os
primeiros sete capítulos da segunda temporada e todos puderam respirar
aliviados. Apesar de, a exemplo do primeiro ano, aqui também os “comics” não
terem sido adaptados de forma fiel, o resultado não decepcionou.
Agora é esperar
fevereiro, para ver o final da temporada que foi dividida em suas partes.
Coisas de um mercado de showbiz que anda mal de dinheiro. Quem diria...
MAD MEN (HBO)
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| Mad Men deve ser proibida para quem frequenta os alcoólicos anônimos, está tentando deixar de fumar ou tentando emagrecer. Ah! Que saudade do tempo em que se curtia tudo isso sem culpa! |
Quem poderia
prever que uma série ambientada nos anos 50 (agora já nos 60) repleta de
atitudes politicamente incorretas para os dias de hoje, se tornaria um dos
maiores sucessos da TV?
As cenas
abusivas de Mad Men exploram o vazio
existencial de uma forma muito parecida com o cinema de Antonioni e o ambiente
escolhido – o mundo da propaganda – se presta de maneira perfeita para
evidenciar as mudanças que a sociedade veio sofrendo, rumo a um futuro que -
embora libertador - sente nostalgia daquela época.
Prazer à parte,
para nós mulheres, é o desfile fashion, proporcionado por uma produção de época
das mais cuidadosas. Problemas
financeiros (novamente eles) emperraram a produção da 5ª temporada, mas ela já
está prometida para março lá na matriz.
DEXTER(FX)
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| Até um serial killer quer ser admirado por fazer seu serviço bem feito. Vocês viram como ele esteve feliz na 5ª temporada, quando a personagem de Julia Stiles se derretia com o jeitinho dele matar, fatiar e desovar? |
A sólida base
literária fornecida por “Darkly Dreaming Dexter” de Jeff Lindsay tem apenas
parte do crédito para a complexidade de Dexter, o anti-herói da TV por
excelência.
Talvez outra
série escolhesse o caminho fácil da redenção, mas Dexter escolheu nos oferecer as nuances da definição de “dever”,
sem se ligar ao conceito de bem ou mal.
Incrível como
vibramos com a ação aterradora do serial killer mais frio e assustador que já
surgiu na TV e como nos solidarizamos com ele, sem uma ponta sequer de dor na
consciência. Para nós, Dexter Morgan é mais que normal. É nosso justiceiro-mor,
perfeitamente representado por Michael C.Hall, que não brilhava tanto desde “A
Sete Palmos”.
Pena que o FX
demore tanto a programar as temporadas por aqui. A 6ª já terminou nos EUA em
dezembro e até agora não foi anunciada por aqui.
ENLIGHTENED
(HBO)
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| Amy é tão tensa e chata, que o personagem mais crível é o ex marido que, mesmo separado, continua se drogando feito louco. |
Depois de um
vergonhoso ataque de nervos público, assistido por todos os colegas de
trabalho, Amy (Laura Dern, surpreendente) se interna voluntariamente em um spa
que oferece um tratamento zen, na base da auto ajuda.
A moça sai de
lá crente que está curada e “iluminada pela verdade”, mas na verdade continua à
beira de um ataque de nervos, coisa que só ela não vê. Nós, que assistimos a
série num clima de quase suspense, esperamos a cada minuto que a personagem
exploda.
Laura
contracena com sua mãe na vida real (Diane Ladd no papel de mãe da protagonista)
num relacionamento mãe/filha dos mais doloridos. E, de volta ao trabalho, Amy
espalha um quase terror entre seus colegas, forçados a aguentá-la, diante da
ameaça de um processo trabalhista.
Uma
curiosidade: o rapaz da foto, Mike White - que também atua como colega de
trabalho - é o brilhante roteirista e produtor, além de criador da série, junto
com Laura Dern.
Enlightened é a mais delicada e complexa
exploração de todo o espectro das emoções humanas que já surgiu na TV, nos
últimos tempos.
A primeira temporada
terminou em dezembro, deixando um gostinho de “quero mais”. Boas notícias: a
série foi renovada e a segunda temporada está garantia, embora sem data.
THE BIG C (HBO)
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Mulheres, à luta! Espelhem-se nas novas escolhas da heroína. Não é preciso ter câncer para chutar o balde!
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Não é difícil
imaginar o tamanho do risco que os executivos do Showtime (canal produtor nos
EUA) correram quando toparam bancar a idéia encampada por Laura Linney: uma
comédia dramática, que gira em torno de uma mulher com câncer incurável. A
mulher que Linney transforma numa lutadora imprevisível e adorável.
Este é o mais
cabal exemplo daquilo que falei lá na introdução. A coragem que falta ao cinema
hoje, sobra nos estúdios de TV que, não só aprovaram a primeira temporada, como
fizeram a chamada com a frase “Esta é uma série sobre viver... com câncer”. Não
é fantástico?
A crítica é
unânime em reconhecer que, sem a força da interpretação da atriz como
protagonista, seria difícil sustentar o ritmo de The Big C. Mas tudo deu certo e o publicou correspondeu.
A segunda
temporada estréia dia 22 de janeiro no Brasil, dando sequência ao que, por
incrível que pareça, foi uma das séries mais “alto astral” de 2011.
AMERICAN HORROR STORY (FOX)
Atenção: Este
texto contém spoiler.
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| O clima de terror foi tão bem construído na casa maldita, que a gente fica esperando, a qualquer momento, o Jack Nicholson entrar em cena, com o machado na mão e os olhos esbugalhados. |
Esta é uma
série estranha.
O personagem
principal é uma casa. Bem, uma casa mais sua vizinha esquisita, representada
por Jessica Lange que, num espetáculo de histrionismo de primeira, ronda a
família moradora, como uma versão malévola de Blanche Dubois .
Num lance
inusitado e bem bolado, os produtores Ryan Murphy e Brad Falchuk criaram uma
série na qual o elenco se renova a cada temporada. Foi uma surpresa para os
americanos que prestigiaram American
Horror Story em massa e só souberam disso no final da primeira temporada,
em dezembro.
Recorrendo a
um horror gótico e inspirando-se em filmes como “Carrie, a Estranha” e “O Bebe
de Rosemary”, a série segue a linha “trash”, com ótimos resultados visuais. A
cada novo personagem que entra em cena, o telespectador fica tentando
adivinhar: esse é de carne e osso ou é mais uma assombração?
Agora, alguém
me explique, por favor: com aquela roupa colante de vinil preto, como é que o
“homem misterioso” consegue comer todo mundo, sem tirá-la!? Isso é que é
mistério.
BOARDWALK EMPIRE
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| É um tanto quanto incômodo sentir as semelhanças entre o comportamento de "Nucky" e o de muitos políticos brasileiros. A política, quando corrupta, é a mesma em qualquer época ou latitude. |
Esta série
surgiu quando a HBO procurava uma atração à altura de seu maior sucesso, “Família
Soprano”.
O livro lhes
foi mostrado pelo ator Mark Walberg que, com outros sócios, havia comprado os
direitos e lhes disse que Martin Scorsese estaria envolvido no projeto.
A história
gira em torno de Enoch Johnson, figurão político do partido Republicano
conhecido como “Nucky”, que entre 1911 e 1941 controlou a exploração de bebidas
ilegais na época da lei seca, prostituição e jogo, em Atlantic City.
Com uma
história dessas, Steve Buscemi no papel principal e com impressionante trabalho
de reprodução de época, que envolveu muita pesquisa, Boardwalk Empire não decepcionou. É sucesso desde o primeiro
capítulo.
A série extrai
da realidade americana dos anos 20 um comentário atualíssimo, nestes tempos de
ditadura do politicamente correto: não há atalho mais rápido para a dissolução
moral que a imposição de regras, em nome de um suposto “bem comum”.
OS BORGIAS (TCM)
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| "Mario Puzzo, que escreveu tanto o livro Os Borgias como "O Poderoso Chefão", levou a máfia para a Roma da idade média." Frase de Neil Jordan, criador, roteirista e diretor da série. |
Talvez por ter
sido lançada no Brasil por um canal sem tradição em grandes séries atuais, a magnífica
série Os Bórgias não teve repercussão
à altura de sua qualidade artística e histórica.
Dos mesmos
produtores de “The Tudors”, foca o papado de Alexandre VI, (o ex cardeal
espanhol Rodrigo Borgia) que deu novo sentido aos termos “corrupção” e
“depravação”.
Num cenário em
que ninguém levava a sério o voto de castidade, Rodrigo Borgia (Jeremy Irons)
tinha amantes e família. E que família: foi pai não só de Lucrezia, famosa pela
beleza, pelos maridos poderosos e pela inteligência, como também de três
homens, entre os quais o cardeal Cesare Borgia.
Concebida pelo
cineasta irlandês Neil Jordan, Os Borgias faz um retrato fiel dos fatos,
personagens e conflitos que marcaram o período inicial da Renascença.
Sem data
marcada, o TCM anuncia a segunda temporada para 2012.
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A lista chegou
a 10, mas tive que deixar fora grandes séries como “The Good Wife” e “Criminal
Minds” (AXN), e “Os Pilares do Templo”, fantástica minissérie anglo-canadense, ambientada na idade
média e mostrada pelo TCM. Foi ou
não foi um ano incrível para séries de TV?
Aos que estranharam que “True Blood” (HBO) ficou fora de minha
lista, saibam que não foi distração ou esquecimento. Foi uma grande série nas
primeiras temporadas mas, convenhamos, agora está mais para “o samba do crioulo
doido”.