Estreia da nossa tricotagem pop  \o/
então... Menine, como diria nossa cinema-lady Camila Suzuki, olha o que rolou esta semana:

Casting de Conan agora conta com Ron Perlman
Nosso adorado HellBoy substituirá Mickey Rourke no papel do pai do bárbaro de tanga de pelo.

NonStopErotik - novo álbum de Frank Black
Nosso amado e eterno vocalista do Pixies, Frank Black, anunciou esta semana que lançará seu novo trabalho solo no dia 30 de março.

Tommy, completa 35 anos!
E é hoje! Dê os parabéns! O musical Tommy, foi lançado nos Estados Unidos, há 35 anos. Caso nunca tenha assitido ao filme ou ouvido o disco (que foi lançado em 1969), por favor, faça.

Família Adams + Tim Burton \o/
Está rolando na net que o próximo projeto de Tim Burton será uma animação 3D da Família Adams em stop-motion - mas, saudositas de plantão, segurem os pompons, não espere uma adaptação da série animada da Hanna Barbera ou mesmo dos brilhantes filmes que rolaram com a Cristina Ricci - será algo novo... Agora é esperar! 

Vacas Having Fun na Cow Parade!
Quem passou pelas avenidas Paulista e Brigadeiro Faria Lima na segunda-feira, dia 15 de março, presenciou uma intervenção artítica nas simpáticas vaquinhas da Cow Parade. 

O artista plástico Eduardo Srur, incomodado com a presença da exposição gringa, posicionou o seu "Touro Bandido" traçando as duas vaquinhas que estavam nas avenidas - se viu viu, porque como ficou claramente sexual, já foi retirado. Nós que amamos as vaquinhas (nos desculpe, Srur) adoramos vê-las se divertindo (nos desculpem, povo da Cow Parade).


Hank Azaria será a voz de Gargamel
Como assim, criança que nasceu nos anos 80 ou 90, você não sabe quem é Gargamel? Vai no google e digita Smurfs.

RPGCon II já tem data marcada
Oh yeah! Fez tanto sucesso que vai voltar! 
Nos dias 03 e 04 de julho de 2010, das 09h às 18h, programa a agendinha e aparece no Colégio Notre Dame - Rua Alegrete, 168, Sumaré, São Paulo/SP - que a diversão é garantida. E se quiser saber mais sobre o evento, pode seguir no twitter o querido D3 @Douglas_3 e a alquimista post-modern Janaína Corral em seu @becoimaginario

Mika apanha no video do single de Kick Ass



 


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Desde o ano passado estou devendo uma coluna para os caras bacanas do d3System. E esta coluna deveria ir para eles - pardon, meninos! - mas esta preciso postar aqui no AZUL. É que fala de Asterios Polyp. E pessoas, é Asterios Polyp, a primeira graphic novel desenhada e escrita pelo David Mazzucchelli. Juro que minha dívida será sanada com vocês, D3 e troupe... Bora fazer assim? Aqui fica a coluna para quem não é fã ardoroso de HQ, no 3DSystem, pulo apresentações e vou direto ao assunto. Combinado?

Então, como disse acima, esta apresentação vai para você, que de repente nem é fã de histórias em quadrinhos, mas se interessou e passou por aqui. Nos anos 80, David Mazzucchelli foi um dos top-phodda dos quadrinhos, porque em sua parceria com Frank Miller (sim, aquele mesmo que escreveu Sin City e 300) publicou algumas das histórias que finalmente elevou os quadrinhos ao patamar de entretenimento para adulto, não que algumas já não fossem antes, mas no caso das histórias publicadas por eles, nas duas maiores editoras de quadrinhos comerciais, a Marvel e a DC Comics, não havia dúvida de que estavam no mesmo nível de muito filme policial bacanudo de muita qualidade - e acredite, e nem importava o fato de que era protagonizado por caras que usavam cuecas por cima das calças e ceroulas coloridas.

Recomendo mesmo que você compre em algum sebo A Queda de Murdock, ou se preferir ler em inglês, Born Again. Lançada pela primeira vez em 1986, em fascículos, é tão histórica que você terá dificuldade de escolher qual versão encadernada comprar. Depois me diz se você lembrou de achar ridículo essa coisa de superherói andar de uniforme colado. Aproveita e lê Batman: Ano Um, caso você tenha assitido aos filmes mais recentes do Morcego, vai perceber muitos paralelos.

E você sabe, nem só de quadrinhos comerciais - os chamados mainstream - vive o mundo das HQs. Acontece com as publicações o mesmo que acontece com o cinema ou a literatura, por exemplo. Você pode encontrar o equivalente a blockbusters, o independente, o alternativo, o artístico - é um mundo bem rico, altamente recomendável caso ainda não tenha se aventurado. E David Mazzucchelli é um artista que se expressou tanto no mundo dos heróis quanto em projetos bem menos comerciais, como no caso de City of Glass, sim, estou falando da adaptação do livro homônimo de Paul Auster, bacana não? Ele fez essa lindíssima HQ em parceria com Paul Karasik.

Mas em mais de vinte anos de carreira, Mazzucchelli nunca tinha tentado uma coisa; fazer sua própria graphic novel. Ele desenhava, sempre lindamente, as histórias de outros autores, obviamente ele dava pitacos nos roteiros, mas uma só dele, nunca. E é por isso que você verá quem curte quadrinhos ficar boquiaberto e de olhinhos vidrados quando se fala em Asterios Polyp, porque é a primeira graphic novel só dele!

E é artsy, mas sério, desde quando isso se tornou uma ofensa? Por causa de alguns idiotas que nem fazem idéia do que é arte e posam de intelectuais, você vai pegar birra de qualquer coisa que receba esta alcunha? Artístico, cult, cabeça, viraram adjetivos bem pejorativos para coisas beeem legais, se forem vistas sem preconceito. Apenas dê a chance.

E como em toda boa obra de arte, no caso de Asterios Polyp, você perceberá várias histórias contadas ao mesmo tempo!

Veja só, você nem precisa ser artista para sacar que a escolha para cada cor usada em cada página está contando uma história. E não precisa ter olho treinado para desenho para perceber uma coisa caso siga meu conselho acima, de ler as HQs de heróis dele primeiro, você ainda vai reconhecer a composição, o enquadramento, mas vai perceber que o traço parece outro, mais limpo, estilizado, parece aquele que vemos em vasos gregos... ooops, será por que Asterios Polyp descende dos gregos? Sim! Ou seja: você tem a história propriamente dita contada nas páginas, você tem a história que as cores contam e ainda a história que os traços e suas diferenças contam. Uma obra de arte pensada, na qual todos os detalhes se juntam para contar uma única história e muitas outras.

E quem é Asterios Polyp?

É um professor de arquitetura, com uma memória privilegiada, completamente pós-moderno (oh não, Germana! Você está abusando de todas as palavras que dão nojinho!) - hah! mas tem motivo para usar, quer coisa mais pós-moderna que um arquiteto que não tem nada construído? Apenas prêmios e livros com seus designs?

Toda a trama é contada de maneira não-linear, e funciona exatamente como funciona qualquer recordação: desarrumada, algumas vezes com atenção maior a detalhes que a situações aparentemente mais importantes. Detalhes, me conte depois o que achou dos detalhes. E junte a tudo isso alguns momentos de puro devaneio surreal. Ah, e se você curte literatura grega, vai sacar umas pinceladas aqui e ali da Odisseia.

Não quero falar mais que isso, comentar nada que revele a trama porque seria uma maldade privar você de certos atalhos e revelações que rolam durante a leitura. O máximo que posso fazer, sem estragar surpresas, é tentar transmitir uma idéia geral do que você vai encontrar. E imitando a atitude do protagonista (destrinchando o mundo a comparações) te dizer que Asterios Polyp é mais ou menos como se Matisse desenhasse um roteiro do Jim Jarmusch baseado na Odisseia. Sério!


Germana Viana

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Crianças


É engraçado ver a história acontecer.


Neste caso, a história da moda e do conceito de beleza feminina, revolucionados na velha e  então sisuda Inglaterra. Meninos eu vi.


Em meados dos anos 60, a modelo inglesa Twiggy criou a imagem da modelo que vigora até hoje. Ela foi a primeira anoréxica da moda. Um escândalo!


Só que o sucesso foi tanto (apesar de ser baixinha) que ela se tornou padrão para as "top models" (expressão que, aliás, nem existia).


Só dava ela e os Beatles, um grupo novo, lá de Liverpool.


Ainda mais usando uma invenção da estilista Mary Quant, que se chamava "mini-saia" e deixava os pais malucos... Hoje vi na Folha uma foto dela, já uma senhorinha cheinha, de 60 anos, em luta contra o uso de peles de animais na moda. Quis dividir minhas lembranças, que pra vocês é história.



Por isso as duas fotos.

Aqui, ela hoje e acima, ela aos 16 anos, mudando os conceitos de beleza, sem perceber.


Mais de Twiggy:

Twiggy era modelo, cantora e atriz, por isso, pode revê-la em algumas participações bem bacanas e memoráveis:


- The Boy Friend, em 1971, adaptação para a tela, do livro/musical de Sandy Wilson


- The Muppet Show, em 1976


- The Blues Brothers , o primeiro, de 1980, com o fantástico John Belushi. 


- Tales from the Crypt, em 1992


- Em Absolutely Fabulous, participou representando ela mesma em dois episódios, em 2001


- America's Next Top Model, reality no qual foi juiza entre 2005 e 2007


E ainda, em 1966 ela "virou" uma Barbie, a Mattel lançou uma boneca com quadris finos e - wow - com pouco busto!


Para ver mais: http://www.twiggylawson.co.uk/


Cleide Bragliollo


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Dita Von Teese é vista, nos dias de hoje, como um dos maiores expoentes do que é ser sensual no ocidente. Nascida Heather Renée Sweet, em 28 de setembro de 1972, em Rochester (Michigan, nos Estados Unidos), ela é uma das responsáveis pela divulgação do gênero burlesco na atualidade.

Justamente sobre esta arte é que a atriz escreveu / produziu o livro Burlesque and the Art of Teese/Fetish and the Art of Teese.

Mas antes de entrar, propriamente, no livro, por assim dizer, é melhor entender o que exatamente é essa coisa de ‘Burlesco’, não?

Burlesco é, na verdade, uma palavra que se refere a um gênero teatral datado do século XVII, da Itália. O termo teve origem, possivelmente, na palavra ‘burla’, que vem da Língua Espanhola, e quer dizer, farsa, sátira, piada exagerada que tende ao grotesco. A apresentação burlesca ou a arte do burlesco encena uma paródia ou uma sátira, uma comédia de costumes da mesma época da Commedia dell’arte, nas quais as histórias têm um forte caráter sexual, que, contudo, não pode ser expresso de maneira aberta – e por isso, normalmente, a nudez era contraposta com artifícios cênicos que a escondessem, ou a roupa era tirada aos poucos, surgindo o que mais tarde seria conhecido como striptease.

Já no século XVIII, esse tipo de teatro começou a ganhar a forma que conhecemos hoje em dia: havia elementos sérios e cômicos, justapostos com a intenção de criar o absurdo, o fantástico, o grotesco, com forte presença de música e dança, encenando, geralmente, uma ópera romântica ou uma obra clássica adaptada para tanto, com um estilo de interpretação mais exagerado. Com o tempo, as apresentações foram ganhando novas formas e havia ‘shows’ de dança burlesca ou apresentações pocket em halls de teatro antes da ópera e cabarés. Era um estilo que atingia do mais pobre ao mais rico dos homens e por isso, tão popular.

No século XX é que as atrações de striptease se tornaram o carro chefe destes shows no norte da América – embora o striptease tenha se originado na última década do século XIX com o Moulin Rouge, a associação entre o estilo e o striptease foi feita na América mesmo.
Nesse contexto, mais associado à sensualidade, surgiram inúmeras grandes estrelas como a maravilhosa Bettie Paige, nas quais Dita se inspirou não só para seus trabalhos, mas para escrever Burlesque and the Art of Teese/Fetish and the Art of Teese.


A partir disso, ela resgatou o estilo de ser pin-up e protagonizou espetáculos de tirar o fôlego, inclusive com as Pussycat Dolls, como pode ser visto no vídeo abaixo:


Desde criança Dita sempre gostou dos musicais da MGM. Essa obsessão fez com que ela entrasse em aulas de interpretação e dança, com o apoio de seus pais – inclusive a quem ela dedica este livro. Aos 16 anos, ela trabalhava numa loja de roupas ao que percebeu sua paixão pela lingerie feminina e o poder que esta exerce no imaginário humano – a força que dá à mulher e o fascínio sem limites que exerce sobre os homens (e mulheres, claro). Esse sentimento norteou suas atividades até hoje e é o que faz com que esse livro seja tão fantástico.


O livro já surpreende por não ter contra-capa. Ele tem DUAS capas! A parte da frente (ou seria a de trás?) vem com o título Burlesque and the Art of the Teese, com uma belíssima capa leve verde-claro e Dita em roupas cor-de-rosa no melhor estilo dos cabarés de alto luxo das décadas de 1920 e 1930. Daí em diante são 131 páginas que narram curiosidades sobre o estilo, dicas da própria Dita e ensaios de tirar o fôlego, capazes de fazer a imaginação ir longe, no tempo, no espaço e nas sensações.

Inverte-se o livro e você vê outra capa: Fetish and the Art of the Teese, com um estilo mais sombrio, tons de cinza e a imagem do corpo semi-nu da atriz, de olhos vendados, com uma capa recobrindo-lhe os ombros e, precisamente, os mamilos. Ela aparece com chicotes e luvas de couro logo nas primeiras páginas, vestidos justíssimos e saltos-altos quase impossíveis de calçar; amarrada em lingeries sensuais, com o corpo pintado em cores metálicas, indo de Anjo a Demônio, de Dominatrix a Escrava.

E aí o leitor desavisado há de se perguntar “Mas o que isso tem de novo? Com certeza uma tonelada de filmes eróticos já faz isso!”

A diferença é que a Dita resgata as rédeas da sensualidade da insinuação, o erotismo de mostrar-se mulher e assumir o fetiche e a fantasia, não só nas situações de âmbito sexual, pois há certos parâmetros utilizados por ela que podem servir para o dia-a-dia de qualquer mulher. Até no das nerds!


Para conhecer melhor o livro e comprá-lo, visite os links:
Amazon.com
Livraria Cultura

Boa Leitura, povo!

Janaína Corral
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Como começo de conversa, já aviso que não sou crítica de arte nem tenho conhecimento de causa suficiente para assim me denominar; sou leiga em termos e técnicas e no rococó do assemblage neo-primitivista. Portanto, este texto é baseado naquilo de que todo ser humano dispõe, a capacidade de sentir, de reter impressões e tudo o mais acerca do que o que de alguma forma o toca. Mas não digo que vi a exposição de street-art no MASP com olhos de criança porque já tive algum contato e tenho algum bastante interesse sobre o assunto. 

Quando soube que o MASP faria essa exposição, primeiro torci o nariz: então agora vão domar o movimento das ruas e deixar lá, limpinho e organizadinho pra burguês ver? O lugar da street-art não é justamente nas ruas?

Mas hoje, dois meses depois da estréia, cansada de ficar em casa com meus germes faringobronquíticos, resolvi contaminar o MASP com a minha presença e dar um confere no que se passa com a rua entre quatro paredes. Minha mente explodiu num mundo de cores, texturas, stencil, colagens e palavras. O MASP nunca esteve tão vivo. O subsolo inteiro estava reservado à monumentalidade da arte dita marginal, o espaço estava tomado  e acabei concluindo, assim, de pronto, que não se tratava de um amansamento, mas sim de uma potencialização do poder e do alcance da mensagem que aquela arte se põe a transmitir. 

Posso estar sendo reducionista e pondo pouca fé na humanidade, mas, segundo a visão geral, a arte, para ser considerada como tal, ou é como objeto de ostentação, utilidade, ou, de preferência, os dois. A ostentação da elite com seus quadros e esculturas de algum cânone do passado espalhados pela sala para mostrar toda a sua pretensa erudição e espírito sublime. A utilidade de mostrar que você é “único” diferente da massa (que também não foge muito da ostentação); e a combinação dos dois, o tão em voga design e seus objetos, aquela cadeira assinada por fulano de tal na qual você nunca senta porque é ergonometricamente desconfortável, mas fica linda no canto da sala de visitas, ou os livros de arte que você coloca na mesinha de centro como tal revista recomendou que fizesse, para mostrar o quanto você é fino. 

Depois da vomitadinha, vamos continuar com o rumo do discurso.

A street-art no museu é válida porque, mesmo tirada de seu contexto original, os muros, as ruas, ainda nos remete  a ele, aos conceitos, ao seu propósito como manifestação e contestação do artista sobre o seu entorno, sobre o que faz parte de sua vida e da de muitos que circulam por uma grande metrópole como São Paulo. E, à parte de que no Brasil não há o costume (nem tampouco o incentivo) de trazer todos ao ambiente museu, a presença dessas peças lá as valorizam imensamente. Quando estão em seu habitat natural, poucos são os que realmente as observam, perdidos nas suas rotinas de formigas trabalhadeiras, sempre apressadas, sem tempo de olhar em volta ou parar para observar os detalhes de uma peça artística no muro pois, além do ponto a ser marcado na firma, há o medo da presença surpresa de um ladrãozinho de rua à espreita.  Deste modo, por mais colorida e monumental que seja, por mais que grite a plenos pulmões, a arte passa desapercebida. 


Quando esta lá, disposta no ambiente silencioso e até mesmo asséptico do museu, tem-se o tempo e a disposição necessários para observar cada detalhe, ler cada linha e se perder em suas próprias epifanias. Porque é esse o efeito arrebatador desta “nova” forma de arte: ela te toca, você se identifica, conecta partes de seu eu a ela, a experiência, a vivência, não é um cotidiano estranho, não é como ver as pradarias francesas de Renoir, as mocinhas brancas como a neve com suas coxas rechonchudas e bochechas rosadas que não teriam muita vez nestes trópicos (precisa-se de muita vocação pra ser cor de leite aqui na terra do sol). E, além de tudo, há a liberdade do uso do espaço oferecido: a maioria das obras não está confinada em molduras de quadros ou no espaço restrito que a peça de mármore ou bronze no qual o escultor se limita. As obras ocupam paredes inteiras e até mesmo ultrapassam o limite delas, continuando pelo chão, em recortes de madeira ou pinturas. É uma experiência magnifíca. Se há como apontar uma vertente que simbolize a arte contemporânea nesse começo de século, não hesito em dizer que é a street-art



De fora pra Dentro/De dentro pra Fora

Até dia 05/02/10 no MASP


Artistas participantes: Carlos Dias, Daniel Melim, Ramon Martins, Stephan Doitschinoff, Titi Freak e Zezão. 


Camila Suzuki


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Distrito 9 (District 9, de Neill Blomkamp) com toda certeza e honras merecidas, é o filme de ficção científica do ano, provavelmente, da década. Sobre a trama, a campanha viral que ajudou a promover o filme e a produção pelas mãos mágicas de Peter Jackson todo mundo sabe (assim suponho e tenho 99% de certeza). Sendo assim, não vou fazer como no meu último post e contar o filme inteiro pra quem se dispuser a ler. Mas, já vou avisando: tenho alma suja de spoiler e estou escrevendo como se todo mundo já tivesse visto o filme, portanto, se este não é o seu caso, vá ler as outras colunas.

Sim, o filme tem alienígenas, tecnologia extraterrestre e uma nave espacial gigantesca de plano de fundo na maioria das cenas, daí a sua adequação à categoria “ficção científica”. Mas esses elementos nada mais são do que uma simples alegoria: a nave em questão pousa na Terra em 1989, e a trama se desenrola no cada vez mais próximo ano de 2010. Nada de futurismos, carros que voam e eugenia de laboratório. A Johannesburgo do filme é a Johannesburgo atual, maior cidade sul-africana e essencialmente branca, como o nome “oficial” sugere. E a alma do filme é, nada mais, nada menos, do que um retrato da natureza humana, com destaque para a xenofobia e o processo de segregação social.

Não coincidentemente a nave pousa sobre a cidade em 1989: este foi o ano em que, finalmente, a queda do apartheid começou a ter contornos mais nítidos (no início do ano seguinte, Nelson Mandela seria liberto da prisão onde esteve confinado por 27 anos). As condições em que os aliens se encontravam na nave inativa por um problema mecânico, doentes, enfraquecidos, é semelhante à dos escravos que eram trazidos no porão dos navios vindos da África para as colônias européias, a fim de servir como mão de obra barata e nada mais. Primeiramente, os extraterrestres foram todos transferidos para abrigos, que logo em seguida se transformaram em favelas cercadas e afastadas da população temerosa a tão peculiares seres. Leis foram estabelecidas para que os indivíduos não-humanos fossem devidamente marginalizados e segregados, com placas indicando os locais onde eles poderiam ou não entrar. Como nos campos de concentração, eram carimbados com a marca de onde habitavam, o Distrito 9, mesmo sendo bastante clara a diferença entre um homem e um alienígena. Bastante familiar e previsível, não? Exatamente, e é de propósito. O Distrito 9 do título e a premissa do filme são baseados no verídico Distrito 6, da Cidade do Cabo, que existiu durante a era do apartheid e onde situações similares ocorreram: a remoção forçada de seus habitantes para outro lugar, ainda mais distante da “sociedade civilizada”; exatamente do mesmo modo como o governo e a população queriam que os alienígenas fossem transferidos do Distrito 9 ao Distrito 10.

2010, o ano em que a ação transcorre, ou melhor, o ano em que ela é analisada por meio de entrevistas e dão o tom de documentário do filme, é contemporâneo, portanto, pós-apartheid e, teoricamente ao menos, negros e brancos desfrutam dos mesmos direitos de ir e vir na maculada África. Não é de se estranhar que a maior parte dos depoimentos colhidos na rua acerca da remoção dos alienígenas para um local mais distante e a “limpeza” do Distrito 9 venha de negros, os segregados de outrora, que repetem o que lhes era dito sobre pelos brancos, afirmando que aquela era a melhor solução, pois os alienígenas colocavam em risco a segurança da sociedade: não se sabia como pensavam, e se pensavam, não havia nenhum vínculo entre eles e os outros, eram seres estranhos, que mereciam toda a desconfiança que lhes era direcionada.

Paradoxal? Ora, negros, brancos, amarelos, vermelhos, e qualquer outra atribuição de cor que seja estabelecida para se identificar uma etnia: somos todos humanos. Claro, há exceções, há aqueles que não vêem mal algum na diferença de um ser humano para outro, mas, infelizmente, são exceções: no fundo, há um xenófobo operando a mente de qualquer um, por melhor que seja a pessoa. Não estou sendo pessimista ou reducionista apenas, é uma realidade, por pior que seja. O que é estranho causa um impacto que nos leva a um determinado tipo de comportamento, seja ele uma curiosidade saudável ou um antagonismo irracional, que traz o temor de que aquela estranheza possa ameaçar os nossos valores, a nossa segurança, o que temos como concreto, o que amamos. Uniões interraciais, interreligiosas, ainda nos dias de hoje, têm o potencial de criar conflitos. Nos sentimos tão esclarecidos diante de tudo o que a Humanidade já experimentou e está documentado em livros de História, mas ainda assim, há aqueles que adotam o mesmo comportamento condenado e condenável. O que se há de fazer? É humano, demasiado humano (como diria nosso tio Fred), ser assim. E, sendo o indivíduo marginalizado, que outro comportamento ele leva a adotar a não ser o de, por assim dizer, fazer jus a tal condição e se comportar de maneira hostil?

Então, não há solução? A Humanidade é perdida por natureza e nunca irá evoluir? Calma, não sejamos assim tão pessimistas. Assim como há os que vêem um inimigo a cada opinião ou modo de vida diferente, há os que estimulam a coexistência, os que crêem que juntos somos muito melhor do que separados, com certeza. Não devemos, assim que começar a subida dos créditos, achar que UAU, O FILME É FODA! QUE EFEITOS! PUTA PRODUÇÃO, CARA! Sim, eu sei que o filme é ótimo,uma obra de arte, e esse pensamento foi por mim provavelmente verbalizado uma dezena de vezes, mas não devemos ficar só nesse estágio de deslumbre. Já é sabido que há filmes que não são mero entretenimento: Distrito 9 faz parte desta nobre casta. Deslumbramentos de sentidos à parte, é um catalisador à reflexão: o filme é revoltante, ele é esclarecedor, ele é ensurdecedor, ele te grita PENSE! Segregação, a condenação do que nos é estranho só traz dor, guerra, sangue derramado. Acorde. Você pode estar desperto, mas o seu vizinho, não. Os seus amigos, não. A tolerância, por mais difícil que nos pareça, merece ser exercida. Não é papo de politicamente correto, pois isso, eu definitivamente não sou: é uma questão de sobrevivência. E não é preciso ter seu DNA modificado por substâncias alienígenas para enfim se dar conta disso.




Notinha: Distrito 9 virou superprodução a partir de um documentário do mesmo diretor, cuja premissa e até atores são essencialmente os mesmos só que com, claro, menos recursos orçamentários: Alive in Joburg, que pode ser visto no Youtube (pelo menos até o término da escrita desta resenha). 



Camila Suzuki
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