Distrito 9 (District 9, de Neill Blomkamp) com toda certeza e honras merecidas, é o filme de ficção científica do ano, provavelmente, da década. Sobre a trama, a campanha viral que ajudou a promover o filme e a produção pelas mãos mágicas de Peter Jackson todo mundo sabe (assim suponho e tenho 99% de certeza). Sendo assim, não vou fazer como no meu último post e contar o filme inteiro pra quem se dispuser a ler. Mas, já vou avisando: tenho alma suja de spoiler e estou escrevendo como se todo mundo já tivesse visto o filme, portanto, se este não é o seu caso, vá ler as outras colunas.Sim, o filme tem alienígenas, tecnologia extraterrestre e uma nave espacial gigantesca de plano de fundo na maioria das cenas, daí a sua adequação à categoria “ficção científica”. Mas esses elementos nada mais são do que uma simples alegoria: a nave em questão pousa na Terra em 1989, e a trama se desenrola no cada vez mais próximo ano de 2010. Nada de futurismos, carros que voam e eugenia de laboratório. A Johannesburgo do filme é a Johannesburgo atual, maior cidade sul-africana e essencialmente branca, como o nome “oficial” sugere. E a alma do filme é, nada mais, nada menos, do que um retrato da natureza humana, com destaque para a xenofobia e o processo de segregação social.
Não coincidentemente a nave pousa sobre a cidade em 1989: este foi o ano em que, finalmente, a queda do apartheid começou a ter contornos mais nítidos (no início do ano seguinte, Nelson Mandela seria liberto da prisão onde esteve confinado por 27 anos). As condições em que os aliens se encontravam na nave inativa por um problema mecânico, doentes, enfraquecidos, é semelhante à dos escravos que eram trazidos no porão dos navios vindos da África para as colônias européias, a fim de servir como mão de obra barata e nada mais. Primeiramente, os extraterrestres foram todos transferidos para abrigos, que logo em seguida se transformaram em favelas cercadas e afastadas da população temerosa a tão peculiares seres. Leis foram estabelecidas para que os indivíduos não-humanos fossem devidamente marginalizados e segregados, com placas indicando os locais onde eles poderiam ou não entrar. Como nos campos de concentração, eram carimbados com a marca de onde habitavam, o Distrito 9, mesmo sendo bastante clara a diferença entre um homem e um alienígena. Bastante familiar e previsível, não? Exatamente, e é de propósito. O Distrito 9 do título e a premissa do filme são baseados no verídico Distrito 6, da Cidade do Cabo, que existiu durante a era do apartheid e onde situações similares ocorreram: a remoção forçada de seus habitantes para outro lugar, ainda mais distante da “sociedade civilizada”; exatamente do mesmo modo como o governo e a população queriam que os alienígenas fossem transferidos do Distrito 9 ao Distrito 10.
2010, o ano em que a ação transcorre, ou melhor, o ano em que ela é analisada por meio de entrevistas e dão o tom de documentário do filme, é contemporâneo, portanto, pós-apartheid e, teoricamente ao menos, negros e brancos desfrutam dos mesmos direitos de ir e vir na maculada África. Não é de se estranhar que a maior parte dos depoimentos colhidos na rua acerca da remoção dos alienígenas para um local mais distante e a “limpeza” do Distrito 9 venha de negros, os segregados de outrora, que repetem o que lhes era dito sobre pelos brancos, afirmando que aquela era a melhor solução, pois os alienígenas colocavam em risco a segurança da sociedade: não se sabia como pensavam, e se pensavam, não havia nenhum vínculo entre eles e os outros, eram seres estranhos, que mereciam toda a desconfiança que lhes era direcionada.
Paradoxal? Ora, negros, brancos, amarelos, vermelhos, e qualquer outra atribuição de cor que seja estabelecida para se identificar uma etnia: somos todos humanos. Claro, há exceções, há aqueles que não vêem mal algum na diferença de um ser humano para outro, mas, infelizmente, são exceções: no fundo, há um xenófobo operando a mente de qualquer um, por melhor que seja a pessoa. Não estou sendo pessimista ou reducionista apenas, é uma realidade, por pior que seja. O que é estranho causa um impacto que nos leva a um determinado tipo de comportamento, seja ele uma curiosidade saudável ou um antagonismo irracional, que traz o temor de que aquela estranheza possa ameaçar os nossos valores, a nossa segurança, o que temos como concreto, o que amamos. Uniões interraciais, interreligiosas, ainda nos dias de hoje, têm o potencial de criar conflitos. Nos sentimos tão esclarecidos diante de tudo o que a Humanidade já experimentou e está documentado em livros de História, mas ainda assim, há aqueles que adotam o mesmo comportamento condenado e condenável. O que se há de fazer? É humano, demasiado humano (como diria nosso tio Fred), ser assim. E, sendo o indivíduo marginalizado, que outro comportamento ele leva a adotar a não ser o de, por assim dizer, fazer jus a tal condição e se comportar de maneira hostil?
Então, não há solução? A Humanidade é perdida por natureza e nunca irá evoluir? Calma, não sejamos assim tão pessimistas. Assim como há os que vêem um inimigo a cada opinião ou modo de vida diferente, há os que estimulam a coexistência, os que crêem que juntos somos muito melhor do que separados, com certeza. Não devemos, assim que começar a subida dos créditos, achar que UAU, O FILME É FODA! QUE EFEITOS! PUTA PRODUÇÃO, CARA! Sim, eu sei que o filme é ótimo,uma obra de arte, e esse pensamento foi por mim provavelmente verbalizado uma dezena de vezes, mas não devemos ficar só nesse estágio de deslumbre. Já é sabido que há filmes que não são mero entretenimento: Distrito 9 faz parte desta nobre casta. Deslumbramentos de sentidos à parte, é um catalisador à reflexão: o filme é revoltante, ele é esclarecedor, ele é ensurdecedor, ele te grita PENSE! Segregação, a condenação do que nos é estranho só traz dor, guerra, sangue derramado. Acorde. Você pode estar desperto, mas o seu vizinho, não. Os seus amigos, não. A tolerância, por mais difícil que nos pareça, merece ser exercida. Não é papo de politicamente correto, pois isso, eu definitivamente não sou: é uma questão de sobrevivência. E não é preciso ter seu DNA modificado por substâncias alienígenas para enfim se dar conta disso.Notinha: Distrito 9 virou superprodução a partir de um documentário do mesmo diretor, cuja premissa e até atores são essencialmente os mesmos só que com, claro, menos recursos orçamentários: Alive in Joburg, que pode ser visto no Youtube (pelo menos até o término da escrita desta resenha).
Camila Suzuki
1 comentários:
Gostei muito da resenha.. quando vi o filme, pensei exatamente nisso. A natureza humana de segregar, excluir, atacar o que não conhece e/ou não entende, infelizmente, dificilmente acabará.
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