
Como começo de conversa, já aviso que não sou crítica de arte nem tenho conhecimento de causa suficiente para assim me denominar; sou leiga em termos e técnicas e no rococó do assemblage neo-primitivista. Portanto, este texto é baseado naquilo de que todo ser humano dispõe, a capacidade de sentir, de reter impressões e tudo o mais acerca do que o que de alguma forma o toca. Mas não digo que vi a exposição de street-art no MASP com olhos de criança porque já tive algum contato e tenho algum bastante interesse sobre o assunto.
Quando soube que o MASP faria essa exposição, primeiro torci o nariz: então agora vão domar o movimento das ruas e deixar lá, limpinho e organizadinho pra burguês ver? O lugar da street-art não é justamente nas ruas?
Mas hoje, dois meses depois da estréia, cansada de ficar em casa com meus germes faringobronquíticos, resolvi contaminar o MASP com a minha presença e dar um confere no que se passa com a rua entre quatro paredes. Minha mente explodiu num mundo de cores, texturas, stencil, colagens e palavras. O MASP nunca esteve tão vivo. O subsolo inteiro estava reservado à monumentalidade da arte dita marginal, o espaço estava tomado e acabei concluindo, assim, de pronto, que não se tratava de um amansamento, mas sim de uma potencialização do poder e do alcance da mensagem que aquela arte se põe a transmitir.
Posso estar sendo reducionista e pondo pouca fé na humanidade, mas, segundo a visão geral, a arte, para ser considerada como tal, ou é como objeto de ostentação, utilidade, ou, de preferência, os dois. A ostentação da elite com seus quadros e esculturas de algum cânone do passado espalhados pela sala para mostrar toda a sua pretensa erudição e espírito sublime. A utilidade de mostrar que você é “único” diferente da massa (que também não foge muito da ostentação); e a combinação dos dois, o tão em voga design e seus objetos, aquela cadeira assinada por fulano de tal na qual você nunca senta porque é ergonometricamente desconfortável, mas fica linda no canto da sala de visitas, ou os livros de arte que você coloca na mesinha de centro como tal revista recomendou que fizesse, para mostrar o quanto você é fino.
Depois da vomitadinha, vamos continuar com o rumo do discurso.

A street-art no museu é válida porque, mesmo tirada de seu contexto original, os muros, as ruas, ainda nos remete a ele, aos conceitos, ao seu propósito como manifestação e contestação do artista sobre o seu entorno, sobre o que faz parte de sua vida e da de muitos que circulam por uma grande metrópole como São Paulo. E, à parte de que no Brasil não há o costume (nem tampouco o incentivo) de trazer todos ao ambiente museu, a presença dessas peças lá as valorizam imensamente. Quando estão em seu habitat natural, poucos são os que realmente as observam, perdidos nas suas rotinas de formigas trabalhadeiras, sempre apressadas, sem tempo de olhar em volta ou parar para observar os detalhes de uma peça artística no muro pois, além do ponto a ser marcado na firma, há o medo da presença surpresa de um ladrãozinho de rua à espreita. Deste modo, por mais colorida e monumental que seja, por mais que grite a plenos pulmões, a arte passa desapercebida.

Quando esta lá, disposta no ambiente silencioso e até mesmo asséptico do museu, tem-se o tempo e a disposição necessários para observar cada detalhe, ler cada linha e se perder em suas próprias epifanias. Porque é esse o efeito arrebatador desta “nova” forma de arte: ela te toca, você se identifica, conecta partes de seu eu a ela, a experiência, a vivência, não é um cotidiano estranho, não é como ver as pradarias francesas de Renoir, as mocinhas brancas como a neve com suas coxas rechonchudas e bochechas rosadas que não teriam muita vez nestes trópicos (precisa-se de muita vocação pra ser cor de leite aqui na terra do sol). E, além de tudo, há a liberdade do uso do espaço oferecido: a maioria das obras não está confinada em molduras de quadros ou no espaço restrito que a peça de mármore ou bronze no qual o escultor se limita. As obras ocupam paredes inteiras e até mesmo ultrapassam o limite delas, continuando pelo chão, em recortes de madeira ou pinturas. É uma experiência magnifíca. Se há como apontar uma vertente que simbolize a arte contemporânea nesse começo de século, não hesito em dizer que é a street-art.

De fora pra Dentro/De dentro pra Fora
Até dia 05/02/10 no MASP
Artistas participantes: Carlos Dias, Daniel Melim, Ramon Martins, Stephan Doitschinoff, Titi Freak e Zezão.
Camila Suzuki
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