
Desde o ano passado estou devendo uma coluna para os caras bacanas do d3System. E esta coluna deveria ir para eles - pardon, meninos! - mas esta preciso postar aqui no AZUL. É que fala de Asterios Polyp. E pessoas, é Asterios Polyp, a primeira graphic novel desenhada e escrita pelo David Mazzucchelli. Juro que minha dívida será sanada com vocês, D3 e troupe... Bora fazer assim? Aqui fica a coluna para quem não é fã ardoroso de HQ, no 3DSystem, pulo apresentações e vou direto ao assunto. Combinado?
Então, como disse acima, esta apresentação vai para você, que de repente nem é fã de histórias em quadrinhos, mas se interessou e passou por aqui. Nos anos 80, David Mazzucchelli foi um dos top-phodda dos quadrinhos, porque em sua parceria com Frank Miller (sim, aquele mesmo que escreveu Sin City e 300) publicou algumas das histórias que finalmente elevou os quadrinhos ao patamar de entretenimento para adulto, não que algumas já não fossem antes, mas no caso das histórias publicadas por eles, nas duas maiores editoras de quadrinhos comerciais, a Marvel e a DC Comics, não havia dúvida de que estavam no mesmo nível de muito filme policial bacanudo de muita qualidade - e acredite, e nem importava o fato de que era protagonizado por caras que usavam cuecas por cima das calças e ceroulas coloridas.
Recomendo mesmo que você compre em algum sebo A Queda de Murdock, ou se preferir ler em inglês, Born Again. Lançada pela primeira vez em 1986, em fascículos, é tão histórica que você terá dificuldade de escolher qual versão encadernada comprar. Depois me diz se você lembrou de achar ridículo essa coisa de superherói andar de uniforme colado. Aproveita e lê Batman: Ano Um, caso você tenha assitido aos filmes mais recentes do Morcego, vai perceber muitos paralelos.

E você sabe, nem só de quadrinhos comerciais - os chamados mainstream - vive o mundo das HQs. Acontece com as publicações o mesmo que acontece com o cinema ou a literatura, por exemplo. Você pode encontrar o equivalente a blockbusters, o independente, o alternativo, o artístico - é um mundo bem rico, altamente recomendável caso ainda não tenha se aventurado. E David Mazzucchelli é um artista que se expressou tanto no mundo dos heróis quanto em projetos bem menos comerciais, como no caso de City of Glass, sim, estou falando da adaptação do livro homônimo de Paul Auster, bacana não? Ele fez essa lindíssima HQ em parceria com Paul Karasik.
Mas em mais de vinte anos de carreira, Mazzucchelli nunca tinha tentado uma coisa; fazer sua própria graphic novel. Ele desenhava, sempre lindamente, as histórias de outros autores, obviamente ele dava pitacos nos roteiros, mas uma só dele, nunca. E é por isso que você verá quem curte quadrinhos ficar boquiaberto e de olhinhos vidrados quando se fala em Asterios Polyp, porque é a primeira graphic novel só dele!
E é artsy, mas sério, desde quando isso se tornou uma ofensa? Por causa de alguns idiotas que nem fazem idéia do que é arte e posam de intelectuais, você vai pegar birra de qualquer coisa que receba esta alcunha? Artístico, cult, cabeça, viraram adjetivos bem pejorativos para coisas beeem legais, se forem vistas sem preconceito. Apenas dê a chance.
E como em toda boa obra de arte, no caso de Asterios Polyp, você perceberá várias histórias contadas ao mesmo tempo!
Veja só, você nem precisa ser artista para sacar que a escolha para cada cor usada em cada página está contando uma história. E não precisa ter olho treinado para desenho para perceber uma coisa caso siga meu conselho acima, de ler as HQs de heróis dele primeiro, você ainda vai reconhecer a composição, o enquadramento, mas vai perceber que o traço parece outro, mais limpo, estilizado, parece aquele que vemos em vasos gregos... ooops, será por que Asterios Polyp descende dos gregos? Sim! Ou seja: você tem a história propriamente dita contada nas páginas, você tem a história que as cores contam e ainda a história que os traços e suas diferenças contam. Uma obra de arte pensada, na qual todos os detalhes se juntam para contar uma única história e muitas outras.

E quem é Asterios Polyp?
É um professor de arquitetura, com uma memória privilegiada, completamente pós-moderno (oh não, Germana! Você está abusando de todas as palavras que dão nojinho!) - hah! mas tem motivo para usar, quer coisa mais pós-moderna que um arquiteto que não tem nada construído? Apenas prêmios e livros com seus designs?
Toda a trama é contada de maneira não-linear, e funciona exatamente como funciona qualquer recordação: desarrumada, algumas vezes com atenção maior a detalhes que a situações aparentemente mais importantes. Detalhes, me conte depois o que achou dos detalhes. E junte a tudo isso alguns momentos de puro devaneio surreal. Ah, e se você curte literatura grega, vai sacar umas pinceladas aqui e ali da Odisseia.
Não quero falar mais que isso, comentar nada que revele a trama porque seria uma maldade privar você de certos atalhos e revelações que rolam durante a leitura. O máximo que posso fazer, sem estragar surpresas, é tentar transmitir uma idéia geral do que você vai encontrar. E imitando a atitude do protagonista (destrinchando o mundo a comparações) te dizer que Asterios Polyp é mais ou menos como se Matisse desenhasse um roteiro do Jim Jarmusch baseado na Odisseia. Sério!
Germana Viana
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