(a calçola com elástico solto da gaveta Azul :P)
O Oscar de ator coadjuvante para o veterano Christopher Plummer chamou atenção para uma bela comédia romântica deliciosamente despretensiosa, Beginners (2010). Ewan McGregor é Oliver Fields, um melancólico e reservado ilustrador de 38 anos que tem a vida abalada pela dor do luto pela morte recente do pai, 5 anos após a morte da mãe, e pelo começo de um relacionamento com a atriz francesa Anna (Mélanie Laurent, de Bastardos Inglórios).
Por meio de flashbacks e imagens de referenciais do passado e
presente, vemos que desde pequeno Oliver tem uma relação complicada com suas
emoções, dentre elas, principalmente, o amor. O relacionamento dos pais,
cordial, porém distante, serviu como um referencial sentimental que não o
ajudou muito ao longo da vida.
Na verdade, o casamento de seus pais era uma espécie de proteção
social para o casal e fonte de ressentimento e melancolia para a mãe de Oliver,
que mesmo sabendo sobre a homossexualidade do marido, o pediu em casamento com
a leve esperança de que poderia mudá-lo. Interpretado por Christopher Plummer,
Hal Fields fica viúvo (perde a mulher para o câncer) e resolve deixar de ser
apenas “teoricamente homossexual”, adotando uma postura de joie de vivre e ativismo pelos direitos dos gays, além de manter um
relacionamento com um amante mais jovem. Oliver parece meio perdido com a
revelação, mas lida com ela da melhor maneira que encontra e apóia o pai.
Mas Beginners não é apenas
um filme que trata sobre formas de amor. A solidão é um tema bastante presente,
que permeia a vida e o cotidiano dos personagens. Temos bastante contato com a
solidão de Oliver, obviamente, afinal é o personagem principal. Mas também
vemos a solidão representada nas memórias dele a respeito da mãe, Georgia (Mary
Page Keller) uma mulher que amava o marido e era por ele amada, mas não da
maneira que ela desejava. Vemos a solidão em Hal, que passou boa parte da vida
tendo que esconder quem era para a sociedade e, quando pôde, resolveu se
libertar e se assumir, uma maneira de sepultar este sentimento, que de certa
maneira o acompanhava em seus anos “dentro do armário”. Temos a solidão de
Anna, por ela buscada como uma forma de sentir-se livre, sempre mudando de
endereços e não mantendo relações duradouras, ao mesmo tempo em que tenta fugir
de outro tipo de solidão, a representada pelo pai suicida. E é a solidão também
o maior temor do carismático jack russell terrier Arthur, o cachorrinho de
estimação de Hal que passa a ser de Oliver depois do falecimento do pai,
protestando sempre que é deixado para trás e que sempre acaba conseguindo ser
levado para qualquer canto que o personagem principal vá (e tem, inclusive,
“conversas” com o dono legendadas na tela, representando as inquietações de
Oliver).
Além de lidar com o processo de luto pela morte dos pais, Oliver
encontra no amor que sente por Anna um outro desafio sentimental: aprender a se
relacionar com alguém, ou seja, curar sua solidão. O modo como os dois se
conhecem, numa festa à fantasia para a qual seus amigos insistem que ele vá,
pode ser vista como um prelúdio desse desafio (que serve para ambos).
Escondendo sua tristeza atrás de uma fantasia de Freud e brincando de ouvir os
problemas das outras figuras representadas pelas pessoas fantasiadas na festa,
é abordado por Anna para fazer com ela uma sessão de terapia muda, em que ela
se comunica através de gestos e um caderninho de notas. Nesse primeiro contato,
vários artifícios são usados para que os dois consigam se comunicar -- e ao
longo do relacionamento entre os dois (agora já com palavras), eles têm de
encontrar vários artifícios para comunicarem seus sentimentos e, enfim, terem o
relacionamento que desejam, mas nunca conseguiram desenvolver com ninguém,
ambos sendo beginners (rá) neste
sentido.
Mantendo ao longo de seus 105 minutos de duração um tom sensível
e ao mesmo tempo bem humorado, com personagens cativantes e uma bela edição, o
mote de Beginners pode ser resumido
pela célebre frase de Tom Jobim: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser
feliz sozinho”.
P.S.: durante o filme, Oliver cria ilustrações para um proposta
de encarte de CD, contando sua versão da “História da Tristeza”. As artes são
obra do diretor Mike Mills, que também é designer e juntou todas em um livro.




